Achei interessante este texto q encontrei no site da Revista Caros amigos e resolvi postá-lo no blog!
A Guerra ao Afeganistão é o Plano Real do Bush
(por Gilberto Felisberto Vasconcellos)
Estamos ferrados neste mundo regido pela dialética yanque de jogar míssil e cesta básica. Falam por nós os Brasis mouros e yslâmicos diante dos ataques da mídia. Bresill, Brasilly, Braxilis, Brasilium, Presill, Pressilli.
Lastimável cobertura facciosa da TV sobre o atentado à ilha de Manhatan.
É deplorável a videodemonização racista da cultura árabe-muçulmana-islâmica-sarracena.
Nossos autores clássicos já sublinharam os traços culturais islâmicos, a exemplo de Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre evocando as mães-d?água e a moura encantada no Nordeste.
O processo da miscigenação foi realizado entre nós pelo amoroso método árabe, fato esse que deixou deveras impressionado o antropólogo alemão Franz Boas radicado nos Estados Unidos: ele ficou atônito perante a cópula metarracial.
Na arquitetura, o xará de Apipucos foi entusiasta do pátio mourisco, esplêndido recurso ecológico adaptado aos trópicos.
Sobre as influências muçulmanas na arquitetura brasileira, Luís da Câmara Cascudo, como sempre, dá um banho de informação e sabedoria: ?Reixas, muxarabiês, torres de igrejas, dentéis, molduras de janelas e portas interiores. Recordo, na mobília tradicional, os sofás amplos e baixos, escabelos, estrados, palanques?.
No sul do país, Manoelito Ornellas publicou o magnífico Gaúchos e Beduínos, livro no qual mostra o quanto a cultura do Rio Grande do Sul é devedora da influência árabe: o gaúcho é o beduíno dos verdes pampas. Que se alimenta, tal qual última árvore em montanha, do orvalho da noite ? no dizer do tarimbado campeador Leonel Brizola.
Outro autor clássico da extremidade sulina, Rubens de Barcellos, assinalou que a existência do gaúcho transcorre asiaticamente à maneira do árabe e do beduíno, ?entre a correria das algaras e o repouso das cabanas?.
Para o Brasil inteiro, o melhor documento do lastro árabe-sarraceno é o velho Luís da Câmara Cascudo com os seus 150 livros de consulta obrigatória.
Em Prelúdio e Fuga do Real, ele chama Luís de Camões de mouro indispensável. ?? Mouros! Mouras! Juntos estivemos 336 anos, e nunca ficamos distanciados do seu fascínio.?
O cuscuz do Nordeste é árabe. E também o arroz-doce.
O mouro do Algarve em Portugal viajou para o Brasil na memória do colonizador. A memória moura ficou sendo a marca essencial da cultura popular brasileira.
Nós somos das Arábias e o nome preferido é o do mouro no adágio brasileiro. Força de mouro. Cara de mouro. Trabalho de mouro.
O auto popular Chegança. Mouros e Cristãos. Vestido azul. Duelos de espadas. É ?o está escrito? no Alcorão. O fanatismo religioso do destino no jogo do bicho. A mouromania. A ciganada. A parlenda para as crianças: bão-balalão, senhor capitão, em terras de mouro, morreu seu irmão.
A mulher botando pano na cabeça é costume mouro. Idem, a usança de turbante nos penteados femininos. Também os pés dos brasileiros com alpercata de rabicho. Escreve Dom Cascudo: ?Lembro a alparcata, alpargat, como escrevia o padre Antônio Vieira, alpercata, apragata, para o nordestino, do árabe al-parcat, o mais antigo calçado dos climas tropicais?.
O mouro mágico, sabedor das manhas e segredos, ?seduz para o amor e a vida farta e feliz?.
Foram os mouros que construíram a igreja de Notre-Dame em Paris. O folclorista Francisco Vasconça aponta as semelhanças entre Afeganistão e Canudos de Antônio Conselheiro e Deus e o Diabo na Terra do Sol de Glauber Rocha. O sertão árabe. Afeganisertão.
Não espanta se por lá aparecer o mote do Bom Jesus Antônio Conselheiro: ?O Afeganisertão vai virar mar?.
Herdamos da mouraria o jeito de comer refeição no chão limpo, os pratos no solo, a toalha de algodão, assim como o beber depois de comer e não durante a refeição. Fala Cascudo:
?Sentar-se sobre as pernas dobradas era jeito mouro.
De cócoras era indígena.
Pernas cruzadas, mulher fazendo renda, é modo japonês e chino.?
A mulher no cavalo, montada de lado, é invenção moura. Nossas amazonas guerreiras não usavam saias.
Do mulherio mouro temos os leques, os guarda-sóis, os véus para o rosto, além de tinta para as sobrancelhas e líquidos que dão brilho aos olhos.
O aboio é canto oriental na pastorícia brasileira. O pandeiro é mouro, assim como o tamborim e o adufe.
Os mouros foram os fanáticos pelo açúcar, tal qual o brasileiro que não dispensa de adoçar a boca depois da refeição. ?Onde estiver o mouro, o árabe, aí estará, infalivelmente, a doçaria? ? sentencia o mestre inigualável do folclore brasileiro. Os mouros plantaram canaviais no sul da Espanha, século 15. A cana-de-açúcar foi nosso primeiro sabor de engenho: ?cana para mastigação e não para o sorvo?. Quem chupa cana tem bons dentes ? dirá o esculápio Silva Mello antes da voga do smile roliudiano no cinema e TV! Sorria, meu bem.
Não vamos esquecer que azeite e azeitona são vocábulos árabes. De origem árabe é o hábito de beijar o pão quando este cai no chão antes de apanhá-lo.
Leitor do Alcorão, Cascudo cita Allah-U-Akbar, ou seja, o ?Deus é grande? que está na boca do povo e escrito nos pára-choques dos caminhões ? só Deus sabe ou sabe Deus...
Digo e aviso que é mouro nosso costume de rogar praga a torto e a direito. Imprecação. Peste. Desgraceira. Maldição. Sobretudo nas horas abertas. Praga ao meio-dia esquenta água fria.
Homem de Deus. Criatura de Deus. Filho de Deus. Embora Alá não pudesse ter filhos. Na África, o negro mandingueiro já estava islamizado antes de vir para o Brasil com seus orixás trazidos pelas vozes dos canaviais.
Outra permanência moura: a humilhação que é apanhar de chinela. Há também a evocação paradisíaca, encontradiça no Alcorão e no dia-a-dia. Lembro minha mãe, dona Adelaide Felisberto, professora primária em Santa Adélia, minha primeira professora, interior de São Paulo: ?Esse menino quer é sombra e água fresca!?
Os usos e costumes brasileiros revelados pela etnografia cascudiana atestam a presença do Oriente no cotidiano. Dançamos a alegoria moura com lundum e batukada, pedimos bênção com a mão na cabeça, respeitando o cadáver, temendo lua nova, relâmpago, trovão, estrela cadente, anjo mau, água parada.
O grande mistério, posto em evidência pelo mestre Câmara Cascudo em seu Geografia do Brasil Holandês, é que o batavo esteve no Nordeste décadas e não deixou no vocabulário popular brasileiro senão o pão ?brote?. Exceto o nome folk-lore, criado por arqueólogo inglês, pouca coisa ficou no espírito popular brasileiro da inglesia colonialis que nos vampirizou desde o Tratado de Methuem até 1930. Gilberto Freyre gostava do anglo, fazia elogios ao terno branco legado pelos ingleses no Brasil. Eu, por mim, passo a bola. Fui conhecer a Inglaterra, passei lá dois dias e saí correndo.
Da influência norte-americana no cotidiano do povo brasileiro o que ficou ? pelo menos até a década de 1960, registrado cientificamante pelo folclore ? foi apenas o gesto do sinal positivo dado com o dedão erguido da mão, aprendido pela caboclada em Panamerim Fields, durante a Segunda Guerra, assistindo ao movimento dos aviões no aeroporto de Natal.
O Alá pós-petróleo muda a leitura e o significado do Alcorão, que descreve o paraíso como sendo formado por uma série de jardins dos trópicos onde correm muitos rios e água cristalina.
O problema é que Maomé aboliu a birita. E o Brasil ainda não acordou para a civilização da biomassa úmida das florestas.
Hasta cuando?
Um abrço Priscilla Boschi