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quinta-feira, agosto 03, 2006

O BRINCAR ATRAVÉS DOS TEMPOS

Lidiane Lurdes Friederichs¹

Quem é que nunca brincou e que não gosta de brincar, seja lá qual for a brincadeira ou o brinquedo? Quem não se lembra do seu brinquedo favorito, da sua brincadeira predileta?
Desde a época de nossos avós, de nossos pais, e desde muito antes, as brincadeiras são transmitidas de geração em geração, onde as crianças ou praticam novamente as brincadeiras, ou criam um novo jeito de brincar, baseando-se no que ouviram, mas aperfeiçoando-as ao contexto atual, à sua forma de brincar.
Minha avó conta que gostava muito de brincar com as bonecas de pano e colocando caranguejos, no lugar dos cavalos, para puxarem carrocinhas feitas de madeira. Minha mãe adorava brincar com bichinhos e andar de bicicleta. Eu, também aprendi a gostar de bichinhos, e tinha grande preferência pelas brincadeiras de casinha, com bonecas. Mas gostava também de muitas outras brincadeiras que aprendi com meus pais, como esconde-esconde, empinar pipa, andar de balanço, diversas cantigas de roda.
Também há as brincadeiras com soldadinhos de chumbo, pião, peteca, bilboquê, pular amarelinha, cabra-cega, bolinhas de gude, tiro ao alvo, carrinhos de rolimã, recitar parlendas, trava-línguas, entre tantas outras brincadeiras tradicionais que nos foram ensinadas pelos nossos pais, avós irmãos mais velhos.
Ainda que muitas vezes uma brincadeira seja característica de um determinado povo, peculiar a uma determinada cultura, certas formas de brincar são reconhecidamente universais, como a boneca e o pião. Transmitidas de geração em geração, de país para país, recebem, muitas vezes modificações que ora respeitam as características fundamentais, ora, por um processo de criatividade que é inerente ao ser humano, dão origem a outros brinquedos.
A tradicionalidade e universalidade das brincadeiras ocorrem porque muitas, ainda hoje, ocorrem fundamentalmente da mesma maneira de quando foram criadas. Por exemplo, a amarelinha que é jogada, basicamente, seguindo o mesmo ritual de quando foi criada antigamente, na Grécia, sendo utilizada por diversos povos do mundo (Kischimoto, 1993).
Os tipos de brincadeiras utilizados retratam a cultura de diversas sociedades e diferentes momentos históricos, demonstrando o tipo de relações sociais, a forma educacional, a importância que se dedica à infância e o papel das crianças em determinadas épocas. Vemos na década de 50 a criação de muitos brinquedos ?espaciais?, como aviões, astronautas, foguetes, representando a época da chegada do homem à lua. Na década de 80, com a revolução tecnológica, temos a criação dos vídeo-games, do super gênio, das bonecas que falam, dos carrinhos de controle remoto, etc.
As brincadeiras, além de diversão, proporcionam o desenvolvimento da criança, auxiliando na estruturação de pensamento, na construção do simbólico, estimulando a linguagem, a coordenação motora, etc. Ao brincar, principalmente quando se utiliza o faz-de-conta, a criança expressa a compreensão da realidade vivenciada, reconstruindo o significado da mesma, flutuando entre o real e um mundo de fantasia, de imaginação, onde poderá interagir com seus medos, suas angústias. Freud (apud Santos e Koller, 2003) relata que ?as crianças simbolizam seus problemas por meio da brincadeira, resolvendo-os em um outro contexto, e trazem para um mesmo momento o presente, o passado e o futuro?.
Autores como Brougère (1198), Uldwin e Shmukler (1981) e Vygotsky (1984) afirmam que ao brincar as crianças reproduzem aspectos de uma sociedade e do mundo adulto, como uma forma de compreender, por meio da simulação, a moral dominante do meio, na qual está inserida (apud Santos e Koller, 2003).
Acredita-se que o brincar existe desde o surgimento do homem, pois com qualquer objeto pode-se inventar uma brincadeira, pode-se criar um brinquedo, desde um simples cabo de madeira, que se pode fazer de cavalo, como uma folha, uma pedrinha que se pode inventar diferentes brinquedos, dependendo da imaginação de cada um.
Há referências de que durante a antiguidade, há mais de 2500 anos, a garotada se divertia com bigas de brinquedo (carros puxados por dois cavalos), que eram justamente os veículos que iriam usar quando crescessem. As bonecas são outro exemplo de brinquedo antigo, sendo que inicialmente eram de pano ou de barro, aperfeiçoando-se com o passar do tempo e surgimento da tecnologia, sendo que hoje pode-se encontrar bonecas que falam. De certa forma, as bonecas surgiram para ensinar as meninas a cuidarem dos bebês, o que era útil para quando se tornassem mães.
Referências ao pião são abundantes na literatura histórica e antropológica. Apesar de o pião ter chegado ao Brasil com os portugueses, sua origem remota está entre os gregos e romanos, sendo citado antes do ano de 579 a.C. por Pittacus. Calímaco, cinco séculos antes de Cristo, refere-se ao pião como brinquedo infantil popular na época. (Kischimoto, 1993).
Philippe Ariès (1978) comenta que o arco aparece no fim da Idade Média. Este brinquedo não era monopólio das crianças ou apenas das crianças pequenas, os adolescentes também brincavam com ele. O arco permitia acrobacias, mantendo o movimento com uma varinha, saltando através deles. A partir do século XVII, nas cidades o arco parece ter sido deixado somente para as crianças.
A perna de pau foi utilizada pelos romanos para atravessar terrenos alagados, tornou-se, a partir da Idade Média, um divertimento popular, incluída nas artes circenses.
A pipa, introduzida no Maranhão pelos portugueses no século XVI, parece ter procedência oriental, antes de século 206 a.C. Originárias de longínquos tempos, foram usadas primitivamente pelos adultos, com fins práticos, em estratégias militares e, com o passar dos séculos, transformou-se em brinquedos infantis. (Kischimoto, 1993). No entanto vemos referências antigas á pipa em vários países do Extremo Oriente, como Japão, Índias Orientais, Nova Zelândia. Este fato revela a universalidade de determinados brinquedos, sendo que no Brasil a pipa possui diferentes nomes, como papagaio, pipa, pandorga, arraia, mas é feita da mesma forma e tem as mesmas condutas durante a brincadeira.
Em 1283, a obra do Rei de Castille Allphonse X, foi o primeiro livro sobre jogos na literatura européia que se tem conhecimento. Ele faz referência a diversos jogos presentes até os tempos atuais, como o pião, a amarelinha, o jogo de saquinhos, o xadrez, tiro ao alvo, jogos de trilha, gamão, etc. (Kischimoto, 1993).
Grunfeld (apud Kischimoto, 1993) refere-se à peteca como um jogo que se pratica na China, Japão e Coréia há mais de 2000 anos. Era usado antigamente para treinamento militar, pois se pensava que tal tipo de jogo melhorava as habilidades físicas dos soldados. Na Coréia os mercadores ambulantes jogavam as petecas para se aquecerem do frio. No entanto, alguns especialistas apontam a peteca como de origem estritamente brasileira, proveniente de tribos tupis.
Para sabermos qual a origem de certas brincadeiras brasileiras, precisamos observar a cultura dos povos que colonizaram estas terras. Estudos determinam a influência de três raças nos primeiros séculos de colonização, a vermelha, a branca e a negra, representadas pelos índios, europeus (principalmente portugueses) e africanos. (Kischimoto, 1993). Como houve grande heterogeneidade na formação do povo brasileiro, e a cultura das brincadeiras foi transmitida basicamente de forma oral, é difícil saber claramente qual foi a cultura lúdica que cada povo trouxe, transmitindo às demais gerações.
No entanto, podemos considerar como legado cultural indígena o gosto por brinquedos representando figuras de animais, a domesticação destes, o uso do bodoque e do alçapão para pegar passarinhos, as brincadeiras de imitar animais como pássaros e cobras, nadar em rios, subir em árvores, etc. Sabe-se que nos séculos XVI e XVII os meninos indígenas brincavam com arco, flechas, tacapes, propulsores, sendo que o seu divertimento era imitar gente grande, caçando pequenos animais, tentando pescar. Um dos primeiros brinquedos que a criança indígena recebia era um chocalho de casca de frutas ou unhas de veado que se amarava a uma boneca. Utilizam, também, a matraca, o pião, a peteca, os jogos do enigma, do casamento e do fio ou cama-de-gato, o rodar argolas com um pedaço de pau.
Entre os indígenas era comum brinquedos de barro cozido, representando a figura de animais e de pessoas, que as índias faziam para seus filhos. Essas ?estatuetas? não eram simples brinquedos, mas elementos de religiosidade. A tradição indígena das bonecas de barro não se transfere á cultura brasileira, prevalecendo a boneca de pano, de origem talvez africana.
Os africanos introduziram aqui as lendas do papão, as cabras-cabriolas, o boitatá, os negros velhos, o saci-pererê, entre outros. Muitas das canções, das histórias e lendas contadas pelas amas de leite e pelos negros velhos contadores de histórias ainda são encontradas atualmente.
O menino africano, sofreu influência de Paris e Londres, pelo seu contato com o europeu. Lá, havia brinquedos universais, como a bola, armas de simular caçadas e pescarias, ossos imitando animais, danças de roda, domesticação de animais, corridas, lutas, saltos de altura e de distancia, que trouxe para o Brasil, além das brincadeiras tradicionalmente africanas como o jogo de caça ao tesouro, pegador, cavalo-de-pau, etc.
As relações de dominação, presentes na estrutura social escravocrata, também eram representadas pelas crianças, onde era comum nas Casas-Grandes colocar um ou mais moleques (filhos de escravos) á disposição dos meninos brancos como companheiros para as brincadeiras, no entanto estes desempenhavam a função de ?leva-pancada? do ?sinhozinho?.
Temos a influência portuguesa principalmente através dos versos, adivinhas, parlendas, de personagens como a mula-sem-cabeça, o papão, mas também no jogo de bolinha de gude, de saquinhos e de botão, em brincadeiras de pique ou de pegar, na amarelinha, também no pião, etc.
Brincado, a criança aprimora seu desenvolvimento, exercita o faz-de-conta, recria situações do cotidiano, projeta suas emoções, expressa suas dificuldades, adquirindo elementos que contribuirão para a formação de sua personalidade.
É através das crianças que se perpetuam as brincadeiras tradicionais, sendo, estas, preservadas e recriadas a cada nova geração. Portanto, resgatar a tradição das brincadeiras é uma forma de ampliar o universo lúdico e cultural das crianças, além de promover uma interação com outras gerações. Assim como nossos pais e avós, com certeza temos uma história pra contar sobre nossos brinquedos prediletos e uma brincadeira a ensinar.
Referências
ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. RJ: Guanabara: 1978;
FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. 50º ed. SP: Global, 2005;
KISCHIMOTO, Tizulo Morchida. Jogos Tradicionais Infantis: o jogo, a criança e a educação. RJ: Vozes, 1993;
SANTOS, Elder C.; KOLLER, Sílvia H. Brincando na Rua. In: CARVALHO, Ana M. (org). Brincadeira e Cultura: viajando pelo Brasil que brinca. SP: Casa do Psicólogo, 2003;
Site: http://cienciahoje.uol.com.br/view/3213, visitado em 24/06/06.

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