Texto interessante!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Aquela velha carta de ABC dava arrepios. Três faixas verticais borravam a capa, duras, antipáticas; e, fugindo a elas, encontrávamos num papel de embrulho o alfabeto, sílabas, frases soltas e afinal máximas sisudas.
Suportávamos esses horrores como um castigo e inutilizávamos as folhas percorridas, esperando sempre que as coisas melhorassem. Engano: as letras eram pequeninas e feias; o exercício da soletração, cantado, embrutecia a gente; os provérbios, os graves conselhos morais ficavam impenetráveis, apesar dos esforços dos mestres arreliados, dos puxavantes de orelha e da palmatória.
"A preguiça é a chave da pobreza", afirmava-se ali. Que espécie de chave seria aquela? Aos seis anos, eu e meus companheiros de infelicidade escolar, quase todos pobres, não conhecíamos a pobreza pelo nome e tínhamos poucas chaves, de gaveta, de armários e de portas.Chave de pobreza para uma criança de seis anos é terrível.
Nessa medonha carta, que rasgávamos com prazer, salvavam-se algumas linhas. "Paulina mastigou pimenta." Bem. Conhecíamos pimenta e achávamos natural que a língua de Paulina estivesse ardendo. Mas que teria acontecido depois? Essa história contada em três palavras não nos satisfazia, precisávamos saber mais alguma coisa a respeito de Paulina.
O que ofereciam, porém, à nossa curiosidade infantil eram conceitos idiotas: "Fala pouco e bem: Ter-te-ão por alguém!" Ter-te-ão? Esse Terteão para mim era um homem, e nunca pude compreender o que ele fazia na última página do odioso folheto. Éramos realmente uns pirralhos bastante desgraçados.
RAMOS, Graciliano. Linhas Tortas. 13a edição, Rio de Janeiro: Record, 1986

1 Comentários:
Muito bom,nosso desafio é este, evitar a alienação nas escolas, hoje cada vez mais nosso alunos estão sedentos de conhecimentos cientificos que realmente fazem parte de sua vida, de uma maneira que eles realmente se interessam, um grande desafio!!!!!!
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