Orwell em estética cyber-punk
Somente ontem pude assistir à animação Meatrix, um híbrido de Revolução dos Bichos com Matrix. Achei interessante a ?paródia?, mesmo porque simpatizo com as metáforas possíveis no filme Matrix. Perdoem-me, desde já, a inconveniência de retornar a uma temática já debatida, aliás, de forma bastante perspicaz, pelos demais colegas.
Algumas metáforas implícitas, ou possíveis, em Matrix nos parecem bem óbvias. São aquelas referentes às atitudes individuais diante de uma realidade coletiva, em que as relações sociais são sublimadas, mediante uma interpretação ?fantasiosa? do mundo, possíveis pela normalização das práticas cotidianas, as quais assumem a forma de mecanismo para a manutenção de uma dada ordem. Em suma, a metáfora está na dualidade do mundo, o real e o ilusório, a mesma apresentada por Platão, em seu mito da caverna.
George Orwell também irá se utilizar desta figura de linguagem em duas grandes obras, ?Revolução dos Bichos? e ?1984?. A primeira, inspirada na Revolução Russa, versa sobre a tomada de consciência dos animais de uma fazenda que, inspirados pelo sonho de um porco, libertam-se da opressão humana. A segunda obra retrata uma sociedade totalitária, onde o indivíduo perde completamente sua liberdade, sendo observado em todos os lugares pelo ?Big Brother?. Contudo, a dominação ?total? não é exercida, apenas, pelo olhar interrupto da ?tele-tela?, mas pelos próprios olhares dos demais indivíduos da sociedade, os quais são potencialmente censores, em uma realidade que tem por finalidade a educação e o trabalho voltados à manutenção totalitária.
Matrix, seria uma versão requentada deste espectro, a impotência diante da dominação. Além da influência cyber-punk e sua da parafernália tecnológica, a película acrescenta a tese do controle inconsciente, e irrestrito, das mentes, inseridas em mundo neuro-interativo.
Ficções à parte, o mundo em que vivemos carrega muito daquilo que provoca o horror destas estórias. A manutenção da estrutura capitalista, e com ela a sociedade de massa, é desenvolvida através de mecanismos de controle subjetivos, desenvolvidos pela mídia, pela economia, pelas interações sociais e suas trocas simbólicas, as tradições, religiões e, por que não, pelas escolas. Mas qual seria o cerne do controle? Em uma palavra, a alienação.
A alienação, aqui referida, está na superficialidade do olhar sobre a realidade, travestido em uma significação única, e de sentido comum. Aqui cabe uma explicação.
Quando uma pessoa olha uma pedra, sabe que aquilo é uma pedra e seu sentido é comum a todos, ou imagina isso. Mas um geólogo certamente não diria a mesma coisa. Talvez este último a visse como um aglomerado de silício, mica e feldspato. Da mesma forma em que um emprego pode ser visto como um objetivo desejável para a maioria dos trabalhadores, enquanto para outros esta relação significa estar submetido a uma estrutura de exploração que movimentará a sociedade a qual eles condenam, portanto, indesejável.
Mas onde entra a Escola nesta alienação? Não seria ela a redentora para o colapso desta ordem? Diria que não.
Se pensarmos que aqueles que se inserem na escola são, paulatinamente, inseridos na sociedade, veremos que os próprios professores exercem a função docente como forma de transmissão dos valores já perpetuados na realidade em que vivem, sendo, portanto, reprodutores sociais. Mesmo que pretenda mostrar ao aluno uma alternativa à realidade massificada, representada pela pílula vermelha, isso significa, em uma visão mais radical, retirar este indivíduo do sistema compartilhado pelo senso-comum, em última análise lega-lo à exclusão. Ora, sabe-se muito bem que a função educacional não serve a este propósito de exclusão, mas ao contrário, serve como forma de inclusão social ? sabe-se lá em que condições. Quando adotamos e executamos um currículo escolar debatido e aceito pela sociedade, não estamos adotando um sentido de contestação à realidade, mas a de afirmação desta. Claro que existe a atitude individual do professor, mas isso não é representativo da escola, tampouco este pode assumir uma posição antagônica à sociedade sem receber o combate das concepções regidas pelo sistema.
Portanto, pretendia com esse texto levantar a questão polêmica sobre o papel da educação no exercício do combate à alienação. Acho que a escola pode influir de forma profunda na transformação social, mas longe está de altera-la como ação redentora. Eis a fantasia do educador.
Aguardo contribuições para o debate.
Renato Avellar.
Algumas metáforas implícitas, ou possíveis, em Matrix nos parecem bem óbvias. São aquelas referentes às atitudes individuais diante de uma realidade coletiva, em que as relações sociais são sublimadas, mediante uma interpretação ?fantasiosa? do mundo, possíveis pela normalização das práticas cotidianas, as quais assumem a forma de mecanismo para a manutenção de uma dada ordem. Em suma, a metáfora está na dualidade do mundo, o real e o ilusório, a mesma apresentada por Platão, em seu mito da caverna.
George Orwell também irá se utilizar desta figura de linguagem em duas grandes obras, ?Revolução dos Bichos? e ?1984?. A primeira, inspirada na Revolução Russa, versa sobre a tomada de consciência dos animais de uma fazenda que, inspirados pelo sonho de um porco, libertam-se da opressão humana. A segunda obra retrata uma sociedade totalitária, onde o indivíduo perde completamente sua liberdade, sendo observado em todos os lugares pelo ?Big Brother?. Contudo, a dominação ?total? não é exercida, apenas, pelo olhar interrupto da ?tele-tela?, mas pelos próprios olhares dos demais indivíduos da sociedade, os quais são potencialmente censores, em uma realidade que tem por finalidade a educação e o trabalho voltados à manutenção totalitária.
Matrix, seria uma versão requentada deste espectro, a impotência diante da dominação. Além da influência cyber-punk e sua da parafernália tecnológica, a película acrescenta a tese do controle inconsciente, e irrestrito, das mentes, inseridas em mundo neuro-interativo.
Ficções à parte, o mundo em que vivemos carrega muito daquilo que provoca o horror destas estórias. A manutenção da estrutura capitalista, e com ela a sociedade de massa, é desenvolvida através de mecanismos de controle subjetivos, desenvolvidos pela mídia, pela economia, pelas interações sociais e suas trocas simbólicas, as tradições, religiões e, por que não, pelas escolas. Mas qual seria o cerne do controle? Em uma palavra, a alienação.
A alienação, aqui referida, está na superficialidade do olhar sobre a realidade, travestido em uma significação única, e de sentido comum. Aqui cabe uma explicação.
Quando uma pessoa olha uma pedra, sabe que aquilo é uma pedra e seu sentido é comum a todos, ou imagina isso. Mas um geólogo certamente não diria a mesma coisa. Talvez este último a visse como um aglomerado de silício, mica e feldspato. Da mesma forma em que um emprego pode ser visto como um objetivo desejável para a maioria dos trabalhadores, enquanto para outros esta relação significa estar submetido a uma estrutura de exploração que movimentará a sociedade a qual eles condenam, portanto, indesejável.
Mas onde entra a Escola nesta alienação? Não seria ela a redentora para o colapso desta ordem? Diria que não.
Se pensarmos que aqueles que se inserem na escola são, paulatinamente, inseridos na sociedade, veremos que os próprios professores exercem a função docente como forma de transmissão dos valores já perpetuados na realidade em que vivem, sendo, portanto, reprodutores sociais. Mesmo que pretenda mostrar ao aluno uma alternativa à realidade massificada, representada pela pílula vermelha, isso significa, em uma visão mais radical, retirar este indivíduo do sistema compartilhado pelo senso-comum, em última análise lega-lo à exclusão. Ora, sabe-se muito bem que a função educacional não serve a este propósito de exclusão, mas ao contrário, serve como forma de inclusão social ? sabe-se lá em que condições. Quando adotamos e executamos um currículo escolar debatido e aceito pela sociedade, não estamos adotando um sentido de contestação à realidade, mas a de afirmação desta. Claro que existe a atitude individual do professor, mas isso não é representativo da escola, tampouco este pode assumir uma posição antagônica à sociedade sem receber o combate das concepções regidas pelo sistema.
Portanto, pretendia com esse texto levantar a questão polêmica sobre o papel da educação no exercício do combate à alienação. Acho que a escola pode influir de forma profunda na transformação social, mas longe está de altera-la como ação redentora. Eis a fantasia do educador.
Aguardo contribuições para o debate.
Renato Avellar.

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