Sobre o SIC
Em uma comunidade de Quilombo, no interior do Rio Grande do Sul, uma estudante de Ciências Sociais, branca de olhos verdes, propõe um trabalho de pesquisa que busca olhar as questões de saúde e cultura sob o viés da territorialidade. Ela rompe com o caminho conhecido e estabelece uma nova gramática em relação ao objeto de pesquisa.
Através do contato com as benzedeiras, o estudo se desenha percebendo as relações entre a terra, a cura e a dádiva. Surgem os conceitos de "Cura Tradicional" e "Cura Convencional", o que as benzedeiras vivênciam como "Doença de Benzer" e "Doença de Doutor" .A partir daí, o significado que atribuí e a maneira como essa comunidade se relaciona com o corpo, a saúde e a terra estabelecem uma outra forma de estar no mundo. Entender a própria vida como um contínuo da terra e por isso respeitar e cuidar do lugar onde se vive, são conceitos importantes para se entender as diferenças.
A inserção dessa comunidade na sociedade capitalista e individualista não se dá sem conflito. O povo do Quilombo é afetado pela cultura da cidade, mas também afeta essa gente que vêm de diversos lugares atrás de reza e cura. A benzedeira não tem mais um quintal do tamanho da mata. Talvez, não encontre mais com tanta facilidade a erva que precisa e por isso acaba modificando seu tratamento. Essas mulheres não plantam, aprenderam a colher o que a terra lhes dá (faz parte da cura ou da impossibilidade dela). O povo do Quilombo perde a terra e perde também a identidade.
Fiquei lembrando de quando eu trabalhei em um Posto de Saúde atrás da PUC ?RS em Porto Alegre. Era um janeiro escaldante e o chefe da equipe nos mandou para rua, devíamos fazer a TERRITORIALIZAÇÃO para entregar até março. Mal saída do curso de Nutrição eu não tinha nem idéia do que era aquilo. Meus colegas médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais também não pareciam ter muita certeza e um consenso parecia impossível. Para alguns era, simplesmente, desejar mapas. Para outros cadastrar pessoas que morassem na nossa zona de abrangência. Confesso que ficamos muito distantes de entender a relação que as pessoas tinham com o lugar onde moravam. Hoje eu teria feito muito diferente.
Essa comunidade, onde eu trabalhei, era conhecida pela maior incidência de casos de HIV de Porto Alegre. Era comum visitarmos casas onde pelo menos uma pessoa da família tinha HIV +. Mais tarde fomos percebendo que havia uma rua, que entre os moradores, era conhecida como " a rua do HIV", pois quase todos naquela rua tinham a doença. Ou seja, a AIDS ali, naquela comunidade, era quase tão comum quanto o resfriado. As pessoas se relacionavam com isso de uma maneira quase que fatalista, como se não houvesse outra forma de estar no mundo. A saúde, também aqui, passava pelo viés da territorialidade.
Marília Felippe.

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