Francisco de Oliveira (por Daniela Jardim)
Retirei essa entrevista do site http://www.apub.org.br/chicoliveira.htm, de uma entrevista com ele sobre a Reforma Universitária. Além desse assunto, ele também fala do Prouni, e do seu ex partido, o PT, e de concepções de partidos esquerdistas e de direita, e ainda do governo Lula. Bem relacionado com as incertezas que estamos vivendo.... espero que gostem!
Confira entrevista com Francisco de Oliveira, professor titular (aposentado) de Sociologia do Departamento de Sociologia da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), da USP, e coordenador-executivo do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania-Cenedic-USP.
Qual é a importância de um evento como o CONAD no atual momento político do país?
Francisco de Oliveira - A importância se deve ao fato de enfrentarmos uma conjuntura em que os ataques às organizações de trabalhadores e a direitos fundamentais da classe trabalhadora vêm agora num novo envelope, que é a chamada reforma universitária. Um envelope que apresenta a reformauniversitária como uma reforma para desfazer privilégios, democratizar a universidade. É um envelope de ressentimentos que existem na sociedade brasileira, porque, é claro, com as desigualdades abissais que o país tem, qualquer categoria como a de funcionários públicos, de docentes, que têm seus direitos garantidos, passa a parecer privilégio. O governo funda-se nesse ressentimento popular que existe para impor uma reforma que, na verdade, é antipopular. Essa reforma vem "envelopada" de argumentos pseudamente a favor do povo, mas, na verdade, é antipopular.
Essa reforma, portanto, representa uma grave ameaça às universidades públicas.
Francisco de Oliveira - Sim, já está em marcha um desmonte da universidade pública. Essa medida provisória que institui o Prouni e que abriu, segundo os jornais, 75 mil vagas no ensino privado destinadas a pessoas mais pobres, mais carentes, em troca de renúncia de impostos que essas empresas deveriam pagar já é parte da reforma universitária. A reforma não está apenas sendo pensada, já está sendo posta em prática, e de forma fatiada, para poder quebrar a capacidade de resistência dos movimentos do ANDES-SN e das várias associações de docentes que se opõem à reforma universitária.
O Sr. avalia que há uma crise de representação política no país, haja vista essa guinada à direita do PT, partido que o senhor ajudou a fundar?
Francisco de Oliveira - Ajudei a fundar mas já saí, há bastante tempo. Mas não me arrependo de ter saído, porque o PT foi para a direita. Essas eleições municipais deram uma certa resposta a essa "direitização" do PT. Seria salutar que o PT fizesse uma reflexão sobre suas derrotas, embora não acredite que o faça, porque sempre encontrará falsas respostas. Mas esse resultado mostrou claramente que uma parte do eleitorado não acredita mais no PT. Isso é grave. O PT não é um partido qualquer. O PT formou-se como resultado da luta de resistência contra a ditadura militar, recolhendo várias forças sociais que finalmente transformaram-se num partido. A perda dessa longa e penosa acumulação de forças o povo brasileiro vai pagar caro. As derrotas do PT nas eleições foram uma espécie de punição. Mas, paradoxalmente, em muitas cidades importantes o ganhador foi o PSDB. A direção nacional do PT, que assumiu a responsabilidade pela condução da campanha em diversas cidades, fez o milagre de ressuscitar um morto. O PSDB não conseguia fazer oposição, simplesmente porque o governo Lula está seguindo a mesma política econômica (de FHC).
O Sr. acredita então que o povo está à procura de um partido de oposição, que há espaço para o surgimento de um novo partido de esquerda?
Francisco de Oliveira - Não sei se há espaço para o surgimento de um novo partido de massa e poderoso como o PT tornou-se. Esse é um processo muito longo. O PT formou-se numa conjuntura em que lutávamos contra a ditadura, em que todo o país pedia a redemocratização, em que forças políticas que haviam sido derrotadas nas organizações armadas ainda tinham muito a dar, em que uma teologia da libertação havia animado novas bases da igreja. É nessa conjuntura que se forma o PT. Isso não se repete assim facilmente. Novos partidos, como o PSOL, ou o fortalecimento do PSTU, são necessários para, no terreno da organização política, enfrentar o PT. Mas não é visível que, a curto prazo, transformem-se em grandes organizações partidárias. Não diria que o povo está à procura de um novo partido de esquerda. Mesmo porque, não existe isso de procura, o que existe é de criação. Se setores da sociedade forem capazes de fazer novos partidos com esse perfil, certamente terão espaço político. Mas as eleições ainda não respondem completamente a essa incógnita.
Na sua avaliação, de que forma a classe trabalhadora deve lutar para fazer frente às reformas neoliberais do governo Lula?
Francisco de Oliveira - É preciso lutar em todas as frentes. Não há nenhuma que deva ser privilegiada. Esse ataque neoliberal, a continuidade da política neoliberal por outros meios, dá-se de todas as formas. Utiliza-se das reformas Universitária, Sindical e Trabalhista, além da manutenção básica da política econômica. A isso, os movimentos populares, os setores organizados da classe trabalhadora devem responder abrindo frentes de luta em todos os locais, porque é difícil hoje armar um movimento único e solidificado. É preciso enfrentar o adversário em cada terreno onde ele se apresenta.
Entrevista extraída do site www.andes.org.br e concedida durante o 49º CONAD - Conselho Nacional da Seções Sindicais e Associações Docentes do ANDES - Sindiocato Nacional.

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