Sobre os indígenas
Achei muito interessante o trabalho do grupo da Daiane (vamos chamar assim já que, das apresentadoras, ela foi um pouco mais verborrágica). Mas para se fazer justiça há que se elogiar a Fernanda, que puxou o coro indígena no ritual que deu início à apresentação do trabalho. Muito legal aquilo. Um legítimo programa de índio, na melhor acepção do termo. Foi bom sentar no chão e tomar mate enquanto assistíamos aos slides (mais uma vez, desculpas à Marlene por tê-la ignorado na roda de chimarrão). Estas aulas de sociologia da educação já fugiam do convencional desde antes, mas com estas dinâmicas (modéstia à parte a do meu grupo também estava muito boa), a coisa tem ficado muito mais excitante.
É humanamente reconfortante saber que as populações indígenas estão crescendo. Alivia um pouco a desagradável sensação de fazer parte de uma raça que vem dizimando e impondo cultura aos legítimos habitantes destas terras. Meu avô, por parte de pai, e minha avó, por parte de mãe, são descendentes de índios do RS (os chamados bugres), mas é provável que nem eles próprios conheçam a riqueza da cultura de seus antepassados, tão integrados estão ao estilo de vida capitalista do homem branco.
Penso que se deve tentar conciliar o que há de bom em todas as culturas e, acima de tudo, respeitá-las. Assim como no trabalho desenvolvido pelo meu grupo, pode-se perceber, no trabalho sobre os índios, que a melhor maneira de se evitar injustiças é praticando diariamente o exercício do respeito e da tolerância. Já fazemos isso nas relações com a família, com os parceiros amorosos, com os colegas de estudo e de trabalho. Estender isso às relações entre culturas, etnias e diferentes grupos sociais nada mais é do que um exercício de solidariedade e humanismo.
Isso nem sempre é fácil. Às vezes fazemos coisas equivocadas com a melhor das boas intenções. Quero relatar um caso que se passou comigo durante o último Fórum Social Mundial. Eu trabalho com diagramação e ilustração e estava produzindo diversos materiais para um pessoal da Economia Solidária. A idéia era criar uma moeda paralela que circulasse dentro do Fórum, durante os cinco dias do evento. Isso foi feito. Eu desenhei quatro cédulas ( de 0,50, 1, 2 e 5) que se chamaram TXAI. Desenvolvemos diversos materiais de divulgação em cima desta proposta. TXAI é um termo da tribo Kaxinauá (talvez esta grafia esteja incorreta) e significa: amigo; metade preciosa de mim; metade de mim em você. Realmente tem uma significação muito bonita. Tudo parecia estar muito bem e encarávamos o uso desta palavra como uma espécie de homenagem, tributo à poesia do significado das palavras indígenas. Mas no meio da coisa toda apareceram diversos representantes dos índios e, de maneira bastante veemente, protestaram contra o uso de uma palavra de sua cultura para dar nome a uma moeda do homem branco, ainda que no contexto político do Fórum Social Mundial. Alegaram principalmente que deveriam ter sido consultados sobre isso.
Depois nos pareceu perfeitamente justa a reivindicação, mas antes não nos ocorrera que isso pudesse ter alguma gravidade. Acho que isso mostra, em menor escala, como fazemos apropriações à força das coisas que nos interessam nas culturas que oprimimos. O respeito é, antes de mais nada, a necessiade de considerar a importância das coisas pela ótica dos outros, não da nossa que pouco ou nada sabemos do seu universo.
Mario Telmo G. do Amaral
É humanamente reconfortante saber que as populações indígenas estão crescendo. Alivia um pouco a desagradável sensação de fazer parte de uma raça que vem dizimando e impondo cultura aos legítimos habitantes destas terras. Meu avô, por parte de pai, e minha avó, por parte de mãe, são descendentes de índios do RS (os chamados bugres), mas é provável que nem eles próprios conheçam a riqueza da cultura de seus antepassados, tão integrados estão ao estilo de vida capitalista do homem branco.
Penso que se deve tentar conciliar o que há de bom em todas as culturas e, acima de tudo, respeitá-las. Assim como no trabalho desenvolvido pelo meu grupo, pode-se perceber, no trabalho sobre os índios, que a melhor maneira de se evitar injustiças é praticando diariamente o exercício do respeito e da tolerância. Já fazemos isso nas relações com a família, com os parceiros amorosos, com os colegas de estudo e de trabalho. Estender isso às relações entre culturas, etnias e diferentes grupos sociais nada mais é do que um exercício de solidariedade e humanismo.
Isso nem sempre é fácil. Às vezes fazemos coisas equivocadas com a melhor das boas intenções. Quero relatar um caso que se passou comigo durante o último Fórum Social Mundial. Eu trabalho com diagramação e ilustração e estava produzindo diversos materiais para um pessoal da Economia Solidária. A idéia era criar uma moeda paralela que circulasse dentro do Fórum, durante os cinco dias do evento. Isso foi feito. Eu desenhei quatro cédulas ( de 0,50, 1, 2 e 5) que se chamaram TXAI. Desenvolvemos diversos materiais de divulgação em cima desta proposta. TXAI é um termo da tribo Kaxinauá (talvez esta grafia esteja incorreta) e significa: amigo; metade preciosa de mim; metade de mim em você. Realmente tem uma significação muito bonita. Tudo parecia estar muito bem e encarávamos o uso desta palavra como uma espécie de homenagem, tributo à poesia do significado das palavras indígenas. Mas no meio da coisa toda apareceram diversos representantes dos índios e, de maneira bastante veemente, protestaram contra o uso de uma palavra de sua cultura para dar nome a uma moeda do homem branco, ainda que no contexto político do Fórum Social Mundial. Alegaram principalmente que deveriam ter sido consultados sobre isso.
Depois nos pareceu perfeitamente justa a reivindicação, mas antes não nos ocorrera que isso pudesse ter alguma gravidade. Acho que isso mostra, em menor escala, como fazemos apropriações à força das coisas que nos interessam nas culturas que oprimimos. O respeito é, antes de mais nada, a necessiade de considerar a importância das coisas pela ótica dos outros, não da nossa que pouco ou nada sabemos do seu universo.
Mario Telmo G. do Amaral

1 Comentários:
- Muito agradecida pelo teu compartilhamento de experiência vivida. Fez do teu comentário um prazer na leitura e um aprendizado respeitoso das diferenças, que podem não apenas realimentar os mitos exisitentes, para recriá-los numa nova perspectiva.
Sentimos tua falta na aula de hoje(28/06)!
Abraços,
Carmen
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